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Chega
à boca da cena, e diz:
Venho
da terra assombrada,
do
ventre da minha mãe;
não
pretendo roubar nada
nem
fazer mal a ninguém.
Só
quero o que me é devido
por
me trazerem aqui,
que
eu nem sequer fui ouvido
no
acto de que nasci.
Trago
boca para comer
e
olhos para desejar.
Com
licença, quero passar,
tenho
pressa de viver.
Com
licença! Com licença!
Que
a vida é água a correr.
Venho
do fundo do tempo;
não
tenho tempo a perder.
Minha
barca aparelhada
solta
o pano rumo ao norte;
meu
desejo é passaporte
para
a fronteira fechada.
Não
há ventos que não prestem
nem
marés que não convenham,
nem
forças que me molestem,
correntes
que me detenham.
Quero
eu e a Natureza,
que
a Natureza sou eu,
e
as forças da Natureza
nunca
ninguém as venceu.
Com
licença! Com licença!
Que
a barca se faz ao mar.
Não
há poder que me vença.
Mesmo
morto hei-de passar.
Com
licença! Com licença!
Com
rumo à estrela polar.
António Gedeão