era_musica Era música...
 

E então soprou um vento de ternura intensa.
E as nuvens se dispersaram, e eu vi que meu coração emergia
como um alto cume de montanha, dourado de sol,
musicado de pássaros e águas.

Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo...
Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí
                                                  [desesperado
a procurar-te.

E, de repente, tomei-te nos braços, afaguei-te a cintura,
                                        [recolhi-te ao meu peito.
Teu coração inquieto pulsava mais que o córrego das
                                                  [montanhas,
batia asas de pássaro encandeado.

E de repente saímos livres e felizes, como simples
     [animais de Deus
com a direção dos ventos.

Faminto, colhi-te como um fruto! Sedento, bebi-te
        [como a água!
Marquei meus dentes em tua carne
e escorreste pela minha boca, pelo meu pescoço, pelo meu
        [peito.

Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te
                                                 [conheceram.
Desmanchei-te os cabelos, e me perdi. Nossas bocas se
                                        [uniram, e se esqueceram.

Tatearam meus lábios escalando cumes,
devassando vales.

E fiquei em ti, vivo e silencioso, como o sangue nas veias,
como a seiva na raiz.
E desci sobre ti e me entranhei, como a chuva descendo
                                                      [e molhando.
E quando falamos: era música.

    J.G de Araújo Jorge

          Voltar