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Chegas,
e de repente eu me pergunto
como
pude ser poeta antes de ti,
antes
de nossas horas encandeadas...
Como
pude escrever coisas que agora
me
parecem belezas mutiladas...
Chegas,
e de repente me surpreendo
de
que ainda haja surpresas para o amor,
marcado
como estou de cicatrizes...
Eu
que escrevera um dia amargurado:
"agora,
em meu caminho, só reprises"...
Chegas,
e eu adolesço de alma e corpo
e
de repente, num verão que abrasa
como
nunca pensara nem supus,
sou
todo novos ramos, verdes ramos,
sou
todo sol numa eclosão de luz...
E
nesta ânsia de amor que me sufoca
que
te sufoca como uma onda, e cresce,
e
invade tudo, e é o tema de meu canto,
só
um desespero surdo me consome:
é
perceber quanto perdemos, quanto...
E
me deixar a imaginar a vida
que
não viveste, mas que te manchou
com
a lembrança de inúteis pensamentos,
esta
vida afinal que eu nem sabia
e
agora solto como um lastro aos ventos...
Jogo
aos ventos, enquanto ascendo, e vejo
em
teus olhos um minuto de ninguém
e
uma paisagem que ainda está sozinha...
Oh!
meu amor, tudo é começo e é novo
agora
que sou teu e te sei minha...
Um
mundo de que nunca suspeitara...
E
eu que falava em mundo antes de ti,
como
se antes de ti pudesse ser...
E
eu que falava em vida antes de amar-te,
e
eu que falei de amor, sem nada ter...
Chegas.
E de repente me pergunto
que
amor é esse que existiu sem ti?
Que
flores? Se não houve primavera...
Ah!
nascemos agora, um para o outro,
e
antes, não fomos mais que vã espera...
Antes,
não fomos mais que espera vã...
E
agora que existimos neste amor,
penso,
que se afinal não te encontrasse,
o
amor teria sido uma palavra,
uma
palavra inconseqüente e fútil,
nada
mais, nada mais que uma palavra;
e
outra palavra a vida, e só palavras
todo
o meu canto...e esse caminho inútil...
J.G. de Araújo Jorge