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A
dor, forte e imprevista,
Ferindo-me,
imprevista,
De
branca e de imprevista
Foi
um deslumbramento,
Que
me endoidou a vista,
Fez-me
perder a vista,
Fez-me
fugir a vista,
Num
doce esvaimento.
Como
um deserto imenso,
Branco
deserto imenso,
Resplandescente
e imenso,
Fez-se
em redor de mim.
Todo
o meu ser suspenso,
Não
sinto já, não penso,
Pairo
na luz, suspenso...
Que
delícia sem fim!
Na
inundação da luz
Banhando
os céus a flux,
No
êxtase da luz,
Vejo
passar, desfila
(Seus
pobres corpos nus
Que
a distância reduz,
Amesquinha
e reduz
No
fundo da pupila)
Na
areia imensa e plana,
Ao
longe, a caravana
Sem
fim, a caravana
Na
linha do horizonte,
Da
enorme dor humana,
Da
insigne dor humana...
A
inútil dor humana!
Marcha,
curvada a fronte.
Até
ao chão, curvados,
Exaustos
e curvados,
Vão
um a um, curvados,
Os
seus magros perfis,
Escravos
condenados,
No
poente recortados,
Em
negros recortados
Magros,
mesquinhos, vis.
A
cada golpe tremem
Os
que de medo tremem,
E
as pálpebras me tremem
Quando
o açoite vibra.
Estala!
e apenas gemem,
A
cada golpe gemem,
Que
os desiquilibra.
Sob
o açoite caem,
A
cada golpe caem,
Erguem-se
logo. Caem,
Soergue-os
o terror...
Até
que enfim desmaiem!
Ei-los
que enfim se esvaem,
Vencida,
enfim, a dor...
E
ali fiquem serenos,
De
costas e serenos...
Beije-os
a luz, serenos,
Nas
amplas frontes calmas.
Ó
céus claros e amenos
Doces
jardins amenos,
Onde
se sofre menos,
Onde
dormem as almas!
A
dor, deserto imenso,
Branco
deserto imenso,
Resplandescente
e imenso,
Foi
um deslumbramento.
Todo
o meu ser suspenso,
Não
sinto já, não penso,
Pairo
na luz, suspenso
Num
doce esvaimento.
Ó
Morte, vem depressa,
Acorda,
vem depressa,
Acode-me
depressa,
Vem-me
enxugar o suor,
Que
o estertor começa.
É
cumprir a promessa.
Já
o sonho começa...
Tudo
vermelho em flor...
Camilo
Pessanha
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